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Representações de Tecnologia e ciência nas obras de Gustavo Barroso (1930- 1935) Representations of science and technology in

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Representações de Tecnologia e ciência nas obras de Gustavo Barroso (1930-

1935)

Representations of science and technology in the works of Gustavo Barroso

(1930-1935)

Karla de Souza Babinski Graduanda em História,

PUC-PR karla_babisnki@yahoo.com.br

Gilson Leandro Queluz Doutor em Comunicação e Semiótica

UTFPR queluz@utfpr.edu.br

RESUMO

 

O presente artigo tem como objetivo analisar as representações tecnológicas encontradas nos

textos de Gustavo Barroso, um dos líderes integralistas, no período entre 1930-1935. A pesquisa

foi embasada em textos relacionados principalmente ao Integralismo e ao Nazismo, procurando a

compreensão das políticas e transformações mundiais, além da análise dos livros de Gustavo

Barroso, destacando-se Aquém da Atlântida e o Quarto Império. Os resultados da pesquisa

demonstram que os estudos relacionados a Gustavo Barroso estão focalizados geralmente em sua

visão anti-semita, que é tema de destaque em suas obras. Porém, nossa análise tem o intuito de

destacar as percepções de Barroso, relacionadas a modernidade, a tecnologia e a ciência,

intimamente ligadas, como veremos, a articulação de seu pensamento político.

Palavras-Chave: Gustavo Barroso, Integralismo, Modernidade, Tecnologia.

Abstract

This article aims to analyze the technological representations found in the writings of Gustavo

Barroso, a leading Integralist in the period of 1930-1935. The research was based- for the

understanding of the political and global transformations- mainly on bibliography related to the

integralism and the Nazism, besides the analysis of books of Gustavo Barroso, specially Aquém

da Atlântida and the Quarto Império. The results of the research show that the studies about

Gustavo Barroso are focused on his vision of anti-semitism, which is actually a prominent theme

in his works. However, our analysis aims to highlight the perceptions of Barroso, related to

modernity, technology and science which are closely tied in the articulation of his political

thought.

Key-words: Gustavo Barroso, Integralism, Modernity, Technology.

 

 

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Representações de Tecnologia e ciência nas obras de Gustavo Barroso (1930-1935)

Este artigo tem o intuito de compreender as representações de tecnologia e ciência nas

obras de Gustavo Barroso, por essa razão, seria importante verificarmos o que se entende por

representações. Segundo Chartier (2002),

A história cultural, tal como a entendemos, tem por principal objecto identificar o modo

como em diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social é construída,

pensada, dada a ler […] Variáveis consoante as classes sociais ou os meios intelectuais,

são produzidas pelas disposições estáveis e partilhadas, próprias de grupo. São estes

esquemas intelectuais incorporados que criam as figuras graças às quais o presente

pode adquirir sentido, o outro torna-se inteligível e o espaço ser decifrado

(CHARTIER, 2002, p. 16,17, grifo nosso).

As representações são, então, pensamentos e discursos, em determinado tempo e espaço,

que foram construídos socialmente. Mas, segundo ainda Chartier (2002), essas representações

construídas por determinado grupo, não são neutras. Para o autor:

[…] produzem estratégias e práticas (sociais, escolares, políticas) que tendem a impor

uma autoridade à custa de outros, por elas menosprezados, a legitimar um projeto

reformador ou a justificar, para os próprios indivíduos, as suas escolhas e condutas. Por

isso esta investigação sobre as representações supõe-nas como estando sempre colocadas

num campo de concorrências e de competições cujos desafios se enunciam em termos de

poder e de dominação. As lutas de representações têm tanta importância como as lutas

econômicas para compreender os mecanismos pelos quais um grupo impõe, ou tenta

impor, a sua concepção do mundo social, os valores que são os seus, e o seu domínio

(CHARTIER, 2002, p.17, grifo nosso).

É neste pensamento que nos embasaremos para abordar nosso tema, pois, como

destacamos, as representações são estabelecidas pelos valores e ideias de determinado grupo para

obtenção de poder, e Gustavo Barroso não se distanciava desse contexto.

É importante observar que as tecnologias transformam e são transformadas no meio em

que vivemos, com suas representações sendo imbuídas de valores:

As tecnologias não apenas refletem a nossa sociedade, mas também a refratam. Desta

forma, a tecnologia não será considerada apenas como um sistema de máquinas com

certas funções, mas também em seu aspecto de dinâmica inter-relação com a construção

social da realidade. Tecnologias são, portanto, construções sociais, elas não são apenas

objetos, mas também expressões culturais. (Queluz 2010, p. 27)

 

Gustavo Adolfo Luíz Guilherme Dodt da Cunha Barroso nasceu na cidade de Fortaleza no

dia 29 de dezembro de 1888, filho de Antônio Filinto Barroso e de Ana Dodt Barroso. Gustavo

foi um intelectual de seu tempo, escrevendo vários livros, ligados principalmente ao folclore

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nordestino, além de publicar artigos em diversos periódicos 1. Utilizava pseudônimos, sendo o

que lhe trouxe maior reconhecimento foi o de João do Norte. Fez parte da Academia Brasileira de

Letras, sendo o terceiro ocupante da cadeira 19, eleito em 1923. Também fundou e dirigiu o

Museu Histórico Nacional, ocupando o cargo de diretor entre o período de 1922 a 1959, onde se

afastou da função apenas no período entre 1930 e 1932 (MAIO, 1992, p. 67-73).

Gustavo Barroso aderiu ao integralismo em 1933, se tornando um de seus principais

líderes. Neste período, suas obras passaram a ter um forte viés autoritário. Sua visão sobre a

modernidade e a tecnologia comungava não somente com a visão dos integrantes da AIB, mas,

aquela hegemônica em grande parte dos intelectuais deste período, ligados a uma perspectiva

política autoritária.

A Ação Integralista Brasileira (AIB), fundada oficialmente em 7 de outubro de 1932,

propunha ideias de mudança no quadro político brasileiro da época, onde as oligarquias ainda

eram muito influentes no cenário político. O período entre o final da República Velha, e o

surgimento do Estado Novo, favoreceu o surgimento deste partido, em um momento, onde, após

a crise de 1929, o liberalismo perdia sua força política no mundo (MAIO, 2002, p. 78). É neste

contexto, que, com a ascensão de alguns partidos de extrema-direita em várias partes do mundo,

destacando-se o fascismo e o nazismo, surgirá em nosso país o Integralismo, que tem grande

similaridade com os partidos fascistas, principalmente na simbologia, desfiles, propagandas e

ideologias e que terá grande influência no pensamento e escrita de Barroso2.

A influência de pensamentos fascistas, principalmente o nazista, demonstrado fortemente

no sentimento anti-semita de Gustavo Barroso, foi tema de destaque em suas obras. Trindade

(1979) relata que o anti-semitismo não foi uma ideologia pregada por todos os integrantes da

AIB, mas, “… quando teóricos e dirigentes integralistas criticam a tendência de Barroso, suas

atitudes não significam uma posição neutra diante do problema judaico, mas uma rejeição de seu

radicalismo…” (TRINDADE, 1979, p. 242).

 

1  Suas  obras  passam  de  uma  centena  em  publicações  onde  os  temas  são  os  mais  variados,  abrangendo  arqueologia,

biografias,   contos,   economia,   ensaios,   ficção,   folclore,   história,   memórias,   museologia,   poesia   e   política.   Sua

primeira  publicação  literária  foi  Terra  e  Sol,  de  1912,  que  descreve  o  sertão  nordestino.  Foi  Redator  dos  jornais,

Jornal  do  Ceará  e  Jornal  do  Commercio,  além  de  diretor  da  revista  Fon-­?Fon,  entre  outras  contribuições.    (MOREIRA,

Afonsina  Maria  Augusto.,  2006,  p.  9  -­?  21).

2   Para   um   maior   entendimento   sobre   as   políticas   fascistas   e   suas   ideologias   ler   PAXTON,   Robert   O.,   2007   e

STACKELBERG,  Roderick,  2002.

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A idéia anti-judaica circulava em meio a sociedade, inicialmente ligada a questões

religiosas. Para Maio (1992) existem dois modelos de anti-semitismo, o de “continuidade” e o de

“ruptura”. O anti-semitismo, ligado a idéia de “continuidade”, seria segundo o pensamento de

Norman Cohn3, uma continuidade do anti-semitismo existente na Idade Média. O anti-semitismo

de “ruptura”, baseado na filosófa Hannah Arendt4, destacaria uma ruptura entre o anti-semitismo

denominado de tradicional, que seria o religioso, e o moderno. No anti-semitismo tradicional, “…

Os judeus seriam o “mal necessário” no terreno religioso, como uma referência fundamental e

negativa da verdade do cristianismo. Na instância econômica, agiriam como agentes monetários

numa economia pré-capitalista…” (MAIO, 1992, p. 24.). Já o anti-semitismo moderno:

[…] inaugurou um período que em seu conjunto culminou no surgimento do

totalitarismo. Seus contornos mais visíveis estão localizados principalmente nas tensões

advindas com a modernidade, quando os judeus foram convocados à participação no

mundo da cidadania. Neste momento, a herança adversa do passado combinada com a

nova inserção dos judeus na esfera dos direitos, criou uma série de constrangimentos,

cujo clímax coincidiu com o aparecimento do mito da conspiração mundial judaica, no

final do século XIX, através de os Protocolos dos Sábios de Sião. Estas tensões teriam

sido pretensamente elaboradas pelos judeus como parte de um plano político de domínio

da humanidade. Os Protocolos são um indicador preciso da importância dos conflitos

entre Estado e sociedade em cujo cenário se destacariam os judeus. A partir do final do

século XIX, os judeus tiveram um papel singular como pólo atrator de múltiplos

descontentamentos sociais, devido à sua inserção marginal na sociedade. Com isso,

foram investidos do papel de fonte única de todos os males.

Desta forma, do “mal necessário” do período anterior surgiu a total intolerância, que se

expressou adiante na solução nazista de eliminação (MAIO, 1992, p. 24, 25).

A ruptura destacada por Maio (1992), entre o anti-semitismo tradicional e moderno, sendo

Os Protocolos dos Sábios de Sião5 o marco dessa nova definição social do anti-semitismo,

destacou os judeus como detentores e causadores de todo o mal no mundo. Esse novo enfoque

seria utilizado pelas políticas fascistas, principalmente a nazista, em suas representações políticas.

O livro Os Protocolos dos Sábios de Sião foi um dos fundamentos do nazismo para legitimar

suas ações e que, significativamente, foi traduzido por Gustavo Barroso no Brasil em 1936.

Segundo Maio (1992):

 

3  Maio  utiliza  o  livro:  COHEN,  Norman.  A  Conspiração  Mundial  dos  Judeus:  Mito  ou  Realidade.  São  Paulo:  Ibrasa,

4  Maio  se  baseou  em:  HANNAH,  Arendt.  As  Origens  do  Totalitarismo:  Anti-­?semitismo.  Instrumento  de  Poder.  Rio  de

Janeiro,  Documentário,  1975.

5   “…   Os   Protocolos   são   reconhecidamente   um   dos   maiores   best-­?sellers   do   mundo   […]   A   obra,   publicada   pela

primeira  vez  na  Rússia  em  1903,  teria  como  autor  um  membro  da  polícia  secreta  do  Czar  Nicolau  II…”  (COSTA,  Luiz

Mário  Ferreira,  2009,  p.  117,  118).

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Até o início dos anos 30, no que tange aos artigos na imprensa e às principais obras

publicadas na República Velha, não se observa em Barroso a presença de conteúdos

antijudaicos. Pelo contrário, em alguns momentos até elogia o povo judeu, ao se deter

em episódios de sua trajetória militar. Só após a Revolução de 30, aparecem os primeiros

sinais de seu anti-semitismo (MAIO, 1992, p. 91).

Apesar desta explicação de Maio (1992), ao analisarmos o livro de Gustavo Barroso,

Aquém da Atlântida, de 1931, antes de sua adesão ao Integralismo, verificamos o emprego de

mitos utilizados por nazistas, como a Atlântida, mitos nórdicos, o vril, livros sagrados hindus,

Thule, citação de esotéricos, como a russa Helena Blavatsky , entre outros6.

Este livro em especial, ao que pudemos verificar, tem o intuito de demonstrar como

ocorreu o povoamento e o surgimento das primeiras civilizações no planeta, sendo a Atlântida o

primeiro local do nascimento das sociedades. Mas, ainda neste texto, já pode-se constatar seu

pensamento contrário ao comunismo e a sua condenação a riqueza.

Neste trabalho, ao relatar a visão dos esotéricos sobre o surgimento e o povoamento de

Atlântida, relata sobre a utilização do vril como energia obtida da natureza ao qual era utilizado

como “força” para movimentar suas invenções.

Tinham grandes navios e navegavam com a bussola. Empregavam a polvora e outros

explosivos mais violentos. Andavam os ricos em barcos aereos movidos pelo misterioso

vril; os pobres e os escravos em carros puxados por leões e leopardos. Havia maquinas

aeras de metal e madeira capazes de transportar de 80 a 100 homens.

Sua industria prosperava. Exploravam minas. Traziam o cobre do Canadá, o ouro e a

prata do Perú, quando os não fabricava quimicamente. Conheciam o metal denominado

orichalco…

Cerné, sua capital, a “cidade das portas de ouro”, ficava ao pé de alta montanha de tres

cumes… Foi isso que deu origem ao simbolo de tridente netuniano…

A mulher era considerada igual ao homem e participava do governo. Podia exercer

qualquer cargo publico, mesmo o de pontifice. Entretanto existia a poligamia limitada a

tres esposas. Havia regimentos de guerreiros femininos e fez-se uma experiencia

comunista que deu pessimos resultados e foi logo abandonada… (BARROSO, 1931, p.

44, grifo nosso).

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Além de descrever esta poderosa sociedade imaginária e as principais tecnologias

desenvolvidas pelos atlantes, e de mencionar que a política comunista não funcionou, destaca que

o fim de Atlântida, baseando-se supostamente nos esotéricos, ocorreu pelo

[…] desequilíbrio entre a evolução moral e material. O orgulho do poder e da ciência

gerou o egoismo e a opressão. O luxo engendrou a sêde das riquezas. Os freios morais

 

6  Para  uma  maior  compreensão  sobre  mitologia  nazista  ver:  GOODRICK-­?CLARKE,  2004.

7  Optamos  por  manter  a  grafia  original  dos  textos  de  Gustavo  Barroso.

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relaxaram-se e os apetites á solta, de braço com a magia negra, trouxeram a idade da

bêsta (BARROSO, 1931, p.45).

Esse pensamento de luta entre a moral e o poder, ligado a ciência, será reiterado em seu

outro livro, O Quarto Império, de 1935, momento em que já havia aderido ao Integralismo.

Neste, especificamente, denotaria sua visão anti-semita, onde todas as guerras e desastres

mundiais seriam vinculados aos judeus, os quais seriam intensificados com o advento do

liberalismo.

O livro é divido em quatro capítulos, correspondendo estes a quatro períodos ocorridos,

na visão de Barroso, na história mundial. Ele descreve o surgimento das primeiras civilizações e

os acontecimentos que levaram a várias mudanças na sociedade, enfatizando a superioridade da

raça branca principalmente relacionada às qualidades morais.

Em seu primeiro capítulo, denominado de O Império do Carneiro, descreve que a

sociedade era fundamentada nos preceitos morais religiosos, sendo que seu fundador foi Ram ou

Rama8 . Segundo Barroso, Ram foi o “… o mais perfeito modelo da humanidade…”

(BARROSO, 1935, p. 23). Nesta sociedade a religião era a principal autoridade, donde, “… O

sacerdócio formava uma teocracia intelectual encarregada da direção cientifica e moral da

sociedade. Abaixo da autoridade religiosa, a autoridade política, civil e militar, exercida pelo

imperador, a que estavam sujeitos os Reis…” (BARROSO, 1935, p. 40).

Esse império perfeito, para Barroso, sucumbiu após trinta e dois séculos, antes de Cristo.

A luta pela sucessão entre dois irmãos: Tarákhya, o mais velho, e Irshú, trouxeram o seu fim. O

irmão mais novo, para alcançar seu objetivo, “… revoltou-se contra o dogma que fazia de Deus

um principio masculino e punha, em consequencia, no Estado Social, o Homem antes da Mulher,

dando ao Pai predominancia sobre a Mãe…” (BARROSO, 1935, p. 43).

Essa divisão, para Barroso, é a causa da separação entre a sabedoria (masculino) e amor

(feminino). Os homens, que passam a seguir suas paixões, não foram mais capazes de

compreender a totalidade, pois, baseando-se na razão,

[…] nunca poderá encontrar sózinha uma Causa ou um Principio Universais, se a

Inteligencia os não indicar. Ora, como poderia a Inteligencia fazer isso, se, no ápice do

 

8  Personagem  principal  da  epopéia  religiosa  indiana,  O  Ramáiana,  escrito  supostamente  pelo  poeta  Valmiqui,  mas,

não  se  há  certeza  sobre  sua  autoria.  (Introdução  de  Paulo  Matos  Paixoto  do  livro  O  Ramáiana,  supostamente  do

poeta  Valmiqui,  editora  Paumape,  1993)

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teu novo Culto e Universidade, pões o Amor antes da Sabedoria, a Alma antes do

Espírito, a Esposa antes do Esposo, a Natureza Celeste antes de Deus. […] não serão

mais possíveis nenhuma hierarquia inteligível e nenhum governo inteligente. Tudo o que

fôr elevado se rebaixará na mediocridade comum, toda dignidade impessoal se afundará

no personalismo e no materialismo governamentais (BARROSO, 1935, p. 50).

Esse acontecimento acarretou no surgimento da Babilônia e consequentemente, dos

judeus, que segundo Gustavo Barroso, passaram a degenerar a humanidade e a afastá-la da

religiosidade. A partir do momento que o homem se afastou da religião, para Gustavo,

Na ciência como na vida, o Deus Social Terreno, a Antiga Sintese Unitaria, será

despedaçada e logo, fatalmente, se seguirá espantosa desordem no dominio dos fatos.

Profundamente desiguais em inteligencia e vontade, a maioria dos homens desconhecerá

as verdades que não poderá alcançar e que terás posto á mercê da opinião e das paixões

públicas […] A vontade arbitraria dos primeiros dividir-se-á continuamente contra ela

propria. O instinto original e selvagem do homem primitivo reaparecerá toalmente nos

segundos. E uns conduzirão os outros á perdição, destruindo a Ordem Social e

Intelectual que os mantem em paz, e devorando-se em vão sobre suas ruínas, na

incessante competição do Poder Impotente sem Autoridade Moral para o iluminar…

(BARROSO, 1935, p. 48,49).

A ambição dos homens, segundo Barroso, fez com que Deus fosse deixado de lado,

provocando surgimento de um novo Império, O Império da Loba, tema do segundo capítulo de

seu livro. Neste tema, Barroso descreve Roma como a capital desse Império, sem base moral e

religiosa, denominando-a como a nova Babilônia: “… A luxuria, a magia negra, a gula, os vicios e

riquezas da Asia e da Africa, a sutileza filosofica da decadência grega e as organizações secretas

dos judeus parasitarios haviam invadido a nova Babilónia…” (BARROSO, 1935, p. 70).

A denotação religiosa, encontrada em seus textos, está intimamente ligada à ideologia

integralista, onde há um forte embasamento cristão em seus discursos. A moral cristã é pregada

como forma de acabar com o materialismo mundial, constituindo-se também em um instrumento

de legitimação e persuasão política do integralismo. Para Cruz (2004):

[…] os valores cristãos – é um condicionamento imaginário, na medida em que faz parte

do instrumental ideológico do movimento na construção de uma imagem que oculta o

seu verdadeiro caráter. Não que os adeptos do integralismo não fossem, de fato cristãos,

mas o culto ao cristianismo não era o empecilho real ao discurso racista clássico, e sim

um meio de legitimar as idéias do movimento (CRUZ, Natalia dos Reis, 2004, p.113).

 

Esta visão de luta entre espiritualismo e materialismo, verificado principalmente nos

discursos do líder integralista, Plínio Salgado, será também uma das bases do discurso

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barrosiano. “… O confronto permanente entre bem e mal explica-se, segundo Salgado, pela

oposição entre duas concepções de vida e de finalidade: o materialismo e o espiritualismo…”

(TRINDADE, 1979, p. 202).

O livro O Quarto Império, como um todo, demonstra a luta entre a moral e o material, os

cristãos contra os judeus, sendo a modernidade e a ciência formas de desvirtuar o homem do

divino. No império da Loba, com o surgimento do cristianismo e do feudalismo, a luta entre a

moral e o material teria sido mais intensificada. Para Barroso inclusive o islamismo foi criado

pelos judeus para acabarem com o cristianismo através de infiltrações de idéias “judaico-árabes”,

ligadas a disseminação da ciência, pondo fim a Idade Média.

O arabismo apresentou-se como um sistema cientifico com a finalidade de matar o

sistema religioso. Baseou-se na teoria da absorpção e da emanação. Disfarçado no arabe,

o judeu trocou o Deus que morava por trás do véu do Templo por uma Inteligencia

Infinita espalhada no Cósmos[…] (BARROSO, 1935, p. 85).

A Revolução Francesa, o liberalismo e o comunismo, foram todas formas encontradas por

judeus, segundo Barroso, para aniquilar o cristianismo. Para Barroso, o capitalismo fez com que

o comércio, indústrias e os veículos de comunicação, ficassem nas mãos de poucos ,

influenciando toda a sociedade. Gustavo afirma que mesmo a Primeira Guerra Mundial, teve

interesse judaico, para a obtenção de lucros através da fabricação de armas. “… No dia da grande

prestações de contas, êsse crime custará muito caro á Europa infeudada aos fabricantes e

traficantes de armamento…” (BARROSO, 1935, p. 153).

Para Gustavo Barroso, a técnica, a ciência a modernidade em geral, foram apenas meios

para um determinado grupo de pessoas, os judeus, obterem lucro e poder mundial. No Império

do Capricórnio, o Império onde os judeus obtêm maior poder maior poder, principalmente após o

surgimento do liberalismo,

[…] o Homem desceu ao despreso completo da Imortalidade, para se contentar com a

creação na Terra duma existencia cheia de alegrias. O aperfeiçoamento da técnica e a

regulamentação perfeita da produção e do consumo são os meios mais capazes de levar o

Homem a êsse novo paraíso. Toda a confusão assoprada pelo nemrodismo judaico vem

produzir êste resultado fatal: o Imperio Economico manejado por algumas mãos…

(BARROSO, 1935, p. 138).

Para Barroso, a técnica, a ciência, a filosofia e os novos preceitos políticos da

modernidade, foram meios encontrados pelos judeus para controlarem a população. “… A

máquina, de serva do homem, se tornou sua senhora, reduzindo ás mais tristes condições a

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mercadoria-trabalho…” (BARROSO, 1935 p. 150). Ele afirma que, o materialismo burguês está

ligado, ao ateísmo, e esse “mal”, só poderia acabar com o aparecimento de outro regime, este

com regras morais, o Integralismo, o “Império do Cordeiro”. O conhecimento, no futuro Império

do Carneiro, estaria ligado ao divino, sendo algo revelado por Deus,

Seu fundador não via somente o mundo da substancia, porque conhecia o da essencia das

cousas. A essencia do Estado, para êle, não era o poder do homem pervertido pela

ambição pessoal ou pelas falsas categorias mentais, nem somente o poder da razão

expresso na lei, mas o da razão, resultando da observação das realidades e norteada pela

inspiração superior do Espirito unido a Deus (BARROSO, 1935, p. 39).

Considerações Finais

Os discursos de Barroso, assim como os fascistas, tiveram o intuito de obter influência

sobre a sociedade em busca do poder político. Neste pensamento, pode-se verificar que suas

representações da tecnologia, ciência e modernidade, estavam totalmente ligadas a sua visão

política, sendo agenciadas em sua luta contra o liberalismo. Suas representações, ligadas

principalmente ao cristianismo, foram utilizadas para a manipulação de ideias das massas para

obter legitimidade política,em um momento de crises econômicas e sociais , através do

argumento maniqueista do mal que o homem -principalmente o semita- trazia a humanidade.

O combate a modernidade em si, para Barroso, estava relacionado à sua ação política na

sociedade. Somente as políticas fascistas, das quais, para Barroso o Integralismo fazia parte,

poderia mudar esse quadro. Para Barroso:

No dia em que as doutrinas fascistas tiverem o mundo inteiro nas mãos, numa aliança

universal […] um equilibrio social melhor permitirá aos povos a tranqüilidade necessária

para organizarem a Paz Social, livres da despudorada intriga da imprensa e da

propagação de doutrinas dissolventes, graças ás medidas de proteção contras as forças

ocultas e parasitarias movidas por messianismos sem escrúpulos (BARROSO, 1935, p.

171).

*Agradecemos ao CNPQ, pelo apoio a esta pesquisa através de bolsa de iniciação científica

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Referências

 

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Difel, 2002, p. 1-28.

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